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DIAL P FOR POPCORN

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Ninho de Cucos (IV)



Não estou certo de que exista alguma afinidade entre o mundo do cinema e do desporto, mas como adepto confesso desta última forma de entretenimento, não podia deixar passar em claro esse tão popular certame que são os Jogos Olímpicos. É óbvio que os dias em que a peregrina ideia do saudoso barão de Coubertin se conseguia traduzir numa fantástica reunião universal de competidores, vão longe. Ainda assim, apesar da inundação dos sponsors e da abertura ao profissionalismo que vieram desvirtuar os valores originais da competição, há que conceder que esta contenda se revela o evento mais globalizante e um dos mais apetecíveis do quadriénio, devido em grande parte à amplitude sócio-geográfica que consegue atingir. A verdade é que não é preciso perceber nada de desporto para se poder apreciar a beleza de momentos em que atletas de países de 3º mundo alcançam a possibilidade de partilhar os holofotes com as maiores estrelas do desporto mundial, e que em raras ocasiões se tornam até capazes de desafiar a lógica probabilística.

Contudo, a raridade dessas ocasiões é cada vez mais evidente. A sociedade consumista do sec. XXI exige grandes atletas e grandes façanhas, não há espaço a vitórias românticas. A atenção volta-se apenas para aqueles que conseguem fazer história, mas perde-se a noção de que conseguir resultados de gabarito não é tarefa tão banal como os superatletas de hoje, que batem recordes da era da guerra fria, o fazem parecer. A verdade é que hoje em dia o mundo precisa de Michael Phelps e Usain Bolts para satisfazer a necessidade estúpida de criar lendas, e toma-os como referências comuns, ao invés de os considerar anomalias fisiológicas ou hipérboles probabilísticas, como na verdade o são. E é daqui que surge a desproporcionada ideia de que qualquer atleta tem a obrigação de lutar por uma medalha, ou pelo menos bater um recorde. A conquista de um lugar no pódio deixou de ser uma tarefa excepcional para ser incluída na lista de obrigações.


Mas o que me impressiona nesta história toda é que nesta era de globalização, em que tão depressa se sabe qual a última contratação do Benfica como a marca da bolsa da primeira dama da Coreia do Norte, e em que se consegue obter informações de qualquer parte do mundo à distância de um clic, toda a gente distribua a atenção sobre o mesmo selecto grupo de indivíduos. Bem sei que esta coisa da aldeia global não está isenta da poderosa influência dos media, mas é com pena que vejo toda esta democratização do acesso à informação ser utilizada para a formação destes ícones mundiais, que para muitos, certamente assumem o papel de heróis.


E talvez seja por isso que o cinema de herói tem vindo a ganhar popularidade nos últimos tempos. Não é por acaso que na última década se têm multiplicado que nem coelhos, filmes baseados em personagens da Marvel, DC Comics e outras que tais. Hulks, Thors, Avengers e Capitães America têm vindo a assumir-se como o baluarte de um género que apesar de não ser novo, aproveita essa fraqueza humana que nos deixa hipnotizados por super-heróis, como quem quer ir para a cama dormir mas não consegue encontrar um parágrafo onde deixar a leitura. Não desafio a lógica de quem, por boa arte, consegue capturar a imaginação do comum cidadão, ao criar personagens que lançam teias do pulso ou desafiam as leis da gravidade; mas dá-me uma certa coceira intelectual perceber que o filme de herói se juntou ao policial, à comédia romântica e outros tantos, no lote dos géneros que compõem a sucata cinematográfica. Não que eu desgoste de super-heróis. Bem, pelo contrário. O que me desconcerta no panorama actual, é que esta vaga de filmes imprimiu a ingénua noção de que cada super-herói deve ter o seu filme! E isto é que estraga tudo. Um filme deve ser feito simplesmente se houver motivação artística para que seja feito, não por ser desprestigiante que o Silver Surfer não tenha o seu próprio filme, enquanto que o Iron Man tem já dois. 


Mas cinjo-me unicamente aos heróis de banda desenhada, quando não era de todo minha intenção. O tipo de filme que viso criticar é todo aquele em que o protagonista surge exclusivamente (ou quase) como um somatório de qualidades humanas, ou que pelo menos essas qualidades sejam o foco principal do filme. Não que haja algo de errado com o filme de herói. De facto, muitas das histórias que valem a pena serem postas em fita pertencem a este grupo. A minha ranhosice deve-se mais à escassez de tramas, em que o protagonista seja mais (ou menos se quiserem) que um mero herói.. Falo de filmes como o sr. Kubrick sabia fazer tão bem, em que o protagonista é muito mais imperfeito e humano, o que dá a impressão que anti-heróis como Redmond Barry (de "Barry Lyndon"), ou Alex Delarge (de "A Clockwork Orange") estejam próximos do risco de extinção. Claro que construir personagens destas dá muito mais trabalho do que contar uma história de sucesso estóico, e requer um nível de perícia que, por infortúnio da criação, não está disponível ao comum dos mortais. 


Há que perseverar, contudo. O anti-herói não está completamente morto. Ainda que as histórias de Kubrick estejam distantes no tempo, e não seja fácil encontrar pares no cinema actual, há ainda fogachos mais recentes que celebram este tipo de filme, como "Fight Club" ou "American Psycho" da transição de milénio, com os dissidentes Tyler Durden e Patrick Bateman, igualmente perturbadores e inquietantes, na sua própria maneira. Também o cinema asiático, com a sua característica capacidade de criar ambientes funestos, tem tido um papel importante com blockbusters como "Oldboy" ou mais recentemente "I Saw the Devil". Mas diz a voz do bom senso que parte do que faz este género tão aprazível é a sua raridade, pelo que acaba por não ser mau que se este se mantenha com este estatuto de underdog.


De qualquer das formas num mundo tão distorcido de prioridades e em que os teenagers levam iPads debaixo do braço em vez de livros aos quadradinhos, percebe-se que seja incomportável para um miúdo ter de continuar a ver o Homem-Aranha aprisionado em vinhetas. São as novas tecnologias diz o meu avô. E se calhar até são. Mas o que o meu avô não se lembra é que o materialismo e o capitalismo já existiam antes dos tablets invadirem o nosso bolso.


Gustavo Santos

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