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DIAL P FOR POPCORN

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Maratona Meryl Streep: KRAMER VS KRAMER (1979)

Este artigo faz parte da nossa semana especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



Antes de analisarmos a fundo os anos 70 da sua filmografia (que são pequenos, visto que ela só se iniciou no cinema em 1977), vamos rever em extenso dois títulos famosos dessa época dos quais ela fez parte. Começamos por este "Kramer vs. Kramer" (1979):




KRAMER VS. KRAMER (Benton, 1979)



 "I came here to take my son home. And I realized he already is home."


"Kramer vs. Kramer", que esteve para ser realizado por Truffaut (que filme diferente iria ser!) mas que parou nas mãos de Richard Benton após o francês ter desistido do projecto, foi o grande vencedor da noite dos Óscares de 1980, vencendo cinco troféus, entre eles Melhor Actor (Hoffman), Melhor Actriz Secundária (Streep), Melhor Argumento Adaptado e Melhor Realizador (ambos para Benton) e a mais importante de todas, a de Melhor Filme.



"Kramer vs. Kramer" conta a história da família Kramer: do pai, Ted Kramer (Dustin Hoffman), muito ocupado com a sua vida profissional para prestar atenção aos problemas de casa; da mãe, Joanna Kramer (Meryl Streep), egoísta e infeliz a ponto de colocar a sua felicidade acima da do seu filho; e Billy Kramer (Justin Henry), uma criança de sete anos que vê o seu mundo e a sua rede familiar desabar quando a sua mãe, insatisfeita com a vida que tem, abandona a sua casa e a sua família e parte em busca de uma mudança de vida, deixando Ted de mãos a abanar, com um filho para cuidar e com um emprego complicadíssimo de manter.


Quando tudo se parece endireitar e Ted e Billy parecem estar a resolver os seus problemas, eis que o drama familiar nos atira numa reviravolta curiosíssima: Joanna volta para reclamar o seu filho, o filho por quem Ted tanto abdicou. Portanto, um casamento de rastos, cheio de egoísmo, infelicidade, ira e silêncio e uma família à beira da ruína, numa luta a dois, dois adultos numa crise de identidade e de idade com uma inocente e feliz criança pelo meio a necessitar da sua total atenção.


"Kramer vs. Kramer" são pouco mais de hora e meia de filme comoventes e emocionantes nas quais penso que o grande trunfo de Benton é precisamente o não ter escolhido lados nesta guerra a dois. A situação até o pedia (divórcio e custódia de um filho), mas Benton não escolheu o caminho mais fácil e tornou assim o nosso filme infinitamente mais interessante. Permite-nos estudar o comportamento das duas unidades parentais a fundo, permite-nos perceber o que os leva a fazer determinadas coisas, o que os leva a ser assim. É isto que é tão interessante na vida real - e que Benton tão bem retratou no filme: na vida nada é preto e branco, todos temos momentos antagonistas, todos temos bons dias e maus dias. O filme tenta levar-nos muitas vezes a escolher um lado, mas o problema é que não dá para fazermos uma escolha sincera, pois tanto um lado como outro exibe defeitos e qualidades em simultâneo. Quando Streep volta para o clímax final do filme, já ninguém tem dúvidas que é impossível rotularmos uma pessoa de uma maneira ou outra; estas personagens são complexas, diversas e profundas o suficiente para as respeitarmos sem moralismos. 


O filme desenrola-se perante os nossos olhos, as decisões são feitas, parece-nos, em tempo real e notamos as personalidades das personagens sempre a mudar. Isso é fruto do magnífico trabalho de Benton no argumento, uma vez que a maioria das cenas têm o selo inconfundível de vida real. Parece mesmo que filmaram o dia-a-dia desta família, tal o ar de conversa do dia-a-dia e situações rotineiras que sucedem no filme, tendo ao mesmo tempo inigualáveis nuances de revelação de traços de cada uma das pessoas (imagem de marca de Benton, que presta imensa atenção ao que é dito e como é dito). É impressionante. O seu foco na humanização das personagens, na exploração da situação e do comportamento, tornaram este filme um verdadeiro sucesso dramático.


Claro que para este sucesso muito contribuem também as fabulosas interpretações de Hoffman, Henry, Streep e Alexander. Dustin Hoffman é perfeito como o pai de família viciado em trabalho que ignora constantemente as dúvidas e incertezas da mulher e que não sabe como lidar com o seu filho. Pega numa personagem unidimensional e transforma-a numa pessoa completa. Gradualmente desce do irado para o compassionado e é tão surpreendente ver esta subtil mudança. É capaz de ser dos seus melhores trabalhos.


Meryl Streep é fabulosa como a mãe dona de casa presa a um casamento sem amor, presa a uma vida na qual não se sente realizada e desesperada por voltar atrás no tempo, a uma altura em que era livre para se descobrir como pessoa. Rouba todas as cenas em que aparece com o seu olhar, a sua expressividade e a forma irascível, rude e sagaz como diz cada uma das suas falas. Ela, que vira vilã da história, ganha toda a nossa simpatia quando, nas cenas no tribunal, decide mostrar-nos que todas as virtudes da sua personagem ainda lá permanecem, com Streep descascando camada atrás de camada de complexidade a cada segundo da sua interpretação. É devastante de ver mas ainda mais impressionante sentir.

Justin Henry é enternecedor como o miúdo Billy e aparentemente ele e Hoffman usaram improvisação na maioria das suas cenas, o que, a ser verdade, é fantástico, porque nada daquilo parece realmente ensaiado mas as palavras são tão certas, tão corriqueiras, tão normais que parece impossível acreditar que não tenham treinado nada. Estas cenas são tão espontâneas que fazem-nos mesmo crer neste elo de ligação que vai ficar para sempre entre este pai e este filho. Finalmente, Jane Alexander é sempre a pedra de apoio da unidade parental que no momento estamos a observar. Primeiro, defende Joanna; mais tarde, defende Ted. E é soberba nessa tarefa.



No final, o que realmente deixa uma marca indelével é que passámos duas horas e ver pessoas, credíveis e empáticas personagens devidamente construídas por belíssimos actores, numa das situações mais comuns do dia-a-dia, num filme que nunca chega a aproximar-se nem do sentimentalismo (nomeadamente na relação crescente entre o pai e o filho) nem do melodramático (no testemunho da mãe no tribunal) e isso, meus caros, é coisa raríssima hoje em dia.


Nota Final:
B+

Informação Adicional:
Ano: 1979
Realizador: Richard Benton
Elenco: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Jane Alexander, Justin Henry
Argumento: Robert Benton (adaptação do romance de Avery Corman)
Fotografia: Nestor Almendros
Banda Sonora: Erma Levin e Roy Yokelson
Duração: 105 minutos


Trailer:



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