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DIAL P FOR POPCORN

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FAREWELL, MY QUEEN (2012)




Quão apetecível vos parece a ideia de desmistificar o mito de Marie Antoinette narrando a história pelo lado dos seus serventes? Se não vos atrai a ideia de um "Downton Abbey" passado dentro e nos arredores do Palácio de Versailles, então fujam a sete pés deste filme pois não é de todo para vocês. "FAREWELL MY QUEEN" pega no dia-a-dia de Marie Antoinette e da sua corte e criadagem, no dia que se viria a tornar célebre com a Tomada da Bastilha e narra-o não na sua perspectiva mas através de Sidonie, uma belíssima jovem e pobre criada ao serviço de sua Majestade. 


Desde os primeiros momentos do filme que Sidonie (Seydoux, uma espantosa interpretação) não nos esconde que nutre uma anormal quantidade de carinho - chamemos-lhe afecto ou até algo mais - pela Rainha de França. O mundo de Marie Antoinette visto pelos olhos de Sidonie é charmoso, elegante, atraente, luxuoso e extravagante - mas também vago e inútil, como a própria Marie Antoinette lhe faz questão de dizer, num dos seus muitos amuos e depressões. A sua amizade com a Duquesa de Polignac, Gabrielle (Ledoyen, que empresta um carisma inconfundível e uma atmosfera de mistério indispensável à personagem) era olhada de lado pela nobreza francesa e pelo povo, que acreditava haver algo mais por entre confidências de amigas. E os revolucionários ameaçavam fazer da maioria da sua corte exemplo, pela morte na guilhotina. A rainha que Sidonie nos mostra é uma pessoa não muito diferente de qualquer um de nós, mas suficientemente distinta para não ser tomada como uma mulher qualquer. Uma dicotomia interessante.


Que a personagem balance tão bem a sua insegurança e a sua imperiosidade é devido à magistral interpretação de Kruger, que lhe confere uma maturidade e uma seriedade pouco habitual nas milhares de caracterizações e descrições que vemos e lemos de Marie Antoinette por aí e lhe confere um ennui sui generis que, associado à sua fama de provocadora, perturbada, esbanjadora e requintada monarca lhe dá toda uma aura de endeusamento que encaixa na perfeição com a noção que Sidonie tem dela e, por sua vez, com a mistificação do mito de Marie Antoinette que o filme quer passar ao espectador. E, sem dúvida, Kruger vende Marie Antoinette como uma profissional. 


A orquestração dos seus criados é um outro deleite especial que Jacquot nos proporciona. Madame Campan (Lvovsky, mais uma belíssima interpretação) é particularmente divertida, como uma espécie de governanta dos aposentos da Rainha, que faz entrar e sair pessoal da sua sala e dá ordens como ninguém. Numa das cenas mais avançadas, quando Marie Antoinette reage rispidamente a uma decisão menos sensata de Sidonie, o tête-à-tête das duas actrizes é majestoso de se ver e momentos de incerteza se seguem, com Madame Campan à espreita, pronta a agarrar Sidonie e a arrancá-la da sala. Até que Marie Antoinette, tão igual a si (Kruger de novo espectacular aqui) se cansa e ignora a pobre servente. Que respira de alívio.


De ritmo rápido e intenso, envolvente, "Farewell My Queen" nunca se preocupa muito com detalhes históricos (pelo menos não mais que o necessário) e prefere tomar o seu tempo em longas e entusiasmantes conversações entre os criados e entre os inúmeros nobres que, nas costas da rainha, vão todos fazendo projeções do que o futuro lhes trará, a eles e à França que desde sempre conheceram. Sidonie é a nossa testemunha dos dias de ansiedade, pânico e angústia que assolam Versalhes nos últimos dias da monarquia francesa e pelos seus olhos vemos a vida de Marie Antoinette como ela a conheceu desaparecer, aos poucos e poucos. Um olhar invulgar mas decididamente informativo sobre como terá sido enfrentar o colapso de um dos maiores reinos da história.


Nota:
B+ (8,5/10)

Informação Adicional:
Realização: Benoît Jacquot
Argumento: Benoît Jacquot, Gilles Taurand
Elenco: Léa Seydoux, Diane Kruger, Virginie Ledoyen, Xavier Beauvois, Noémie Lvovsky, Michel Robin
Fotografia: Romain Winding
Música: Bruno Coulais
Ano: 2012