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DIAL P FOR POPCORN

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A MORTE DA 7.ª ARTE (Variação Tom Cruise)

"O Dial P For Popcorn tem o prazer de vos apresentar o nosso mais recente colaborador! Axel Ferreira, nosso colega e amigo, aceitou o convite para a elaboração de uma crónica mensal. Com uma visão peculiar e distinta da realidade cinematográfica, A Morte da 7.ª Arte deixa apenas uma promessa: Ninguém a poderá evitar."


“Mel Gibson Está Morto” dizia Zaratrustra.

A primeira coisa que ocorreu à primeira pessoa a quem mostrei a minha primeira crónica por vontade própria, foi dizer-me: e o que é que há de novo? Nada além daquilo que sempre foi evidente para mim. Quase tudo o que é feito no Mundo cinemático é mau e, contra toda a razão, quase toda a gente gosta do que é mau. E como estou farto de falar sobre isso, este mês está “Um Tempo Para Cavalos Bêbados” (ou “Zamani Barayé Masti Asbha”), mas já ninguém liga ao bom cinema iraniano. O que eu queria dizer era que vou falar do que me der primeiro na minha real revolta contra o mundo do cinema, não fosse esta a morte dessa arte.


Pois aqui vai, sem grandes rodeios e creio que sem grandes surpresas, um dos princípios mais errados que existe no mundo do cinema, a adoração dos actores. Como é evidente a maioria dos actores são um bando de idiotas abastados e egomaniacos. Aos que se revoltaram já nesta frase, pensem só no seguinte: Shiloh Jolie-Pitt, e eu que tanto queria fazer um bonito jogo de palavras, mas a coisa chega a ser tão metafísica para mim que eu não me creio capaz de realizar qualquer tipo de gozo sobre isto, de qualquer maneira faz-me lembrar a marca de chinelos da minha avó. Sendo sincero, se visse este nome num romance burlesco qualquer teria a sensação de ser demasiado forçado e irrealista para nomear fosse o que fosse, chinelo ou não. E estes homens e mulheres acham-se no pleno direito de escolher filmes, alterar argumentos, dar nomes risíveis a meninos do terceiro mundo e, veja-se a enorme ousadia, formar opinião pública. E vocês dizem que estou a exagerar, que escolhi logo duas personagens que devem ter, entre os dois, um filme e meio aguentáveis. Digo-vos com toda a sinceridade que podia ter escolhido pior, neste mundo de cientologistas sem expressão facial, fantasias adolescentes vampirescas, 20 a 22 James Bonds, actrizes meritórias pelas suas excelentes glândulas mamárias, sex symbols quinquagenários, homens de acção de boca torta, homens de acção de boca direita mas que mesmo assim não sabem falar e que agora até são governadores… Como poderia eu ousar dizer menos desta gente? Revolto-me contra qualquer pessoa que esteja sempre a avaliar performances, dizer que este ou aquele papel foi brilhante, a interpretação genial e mais o que for… Os actores não passam dos bonecos animados que estão à frente da câmara, banais e sem personalidade (se aspirarem a ser bons actores). Não podem passar disso. Já se perdeu a ideia do que é um bom filme, um bom argumento, uns bons planos, uma boa montagem. Já ninguém quer saber do homem que escreve ou faz, de todos os blogs de cinema que vejo, tantos falam extensamente do Harrison Ford e do Keanu Reeves, fazem-lhes resumos de carreira, melhores momentos, filmes marcantes, um pedestal infindável de dados fascinantes sobre a irrelevância absoluta. E o Philip K. Dick? O homem cujos contos deram origem a inúmeros argumentos de filmes? Nunca vi uma palavra escrita sobre o homem. Ele podia não fazer filmes, podia não ser bonito nem fazer cenas de sexo no grande ecrã mas as histórias dele sempre foram qualquer coisa de brilhante. Não seria muito mais interessante escrever sobre uma pessoa genial? Não seria de maior valor fazer retrospectivas sobre personagens tão marcantes como George Gershwin? Ninguém quer saber do Óscar para melhor argumento original, mas toda a gente sabe quem ganhou melhor actor, melhor actriz, melhor actor secundário, melhor actriz secundária e até melhores efeitos especiais (e desde já, e desculpando-me pelo aparte, quero agradecer à academia dos Óscares por seleccionar os filmes que não devo ver).



A sobrevalorização desta gente, a importância que se lhes dá é algo de muito perigoso. Não podem ser estas as referências do mundo moderno. Estas pessoas tornaram popular a hipocrisia de ter pena pelos pobres e ganhar dinheiro à custa deles. Houve até uns tempos em que a coisa mais cool do mundo era dizer mal do Presidente Bush na televisão, chegaram até a fazer música sobre isso, a coisa tomou tal dimensão que agora tomamos isso como verdade absoluta. Independentemente de o homem ser uma besta ou não, eu não quero que seja esta gente a definir isso. Quero ainda menos que eles se achem capazes de dizer seja o que for sobre isso. Eu não vou ao cinema ver estes personagens, se bem que alguns deles me façam ficar um pouco como no “Die Geschichte vom weinenden Kamel” ou melhor dizendo “A História do Camelo que Chora”, mas também já ninguém liga ao bom cinema alemão sobre mongóis. Alguns deles atacam de facto a minha sensibilidade, em alianças conjuradas no inferno, que até dão vontade ao Orson Wells, já na cova, de nunca ter feito brincadeiras na rádio. Alguns deles chegam a pensar que são tão bons que até fazem filmes gore com Jesus Cristo. O que não deixa de ter a sua piada, Nietzsche disse que Deus estava morto, este homem matou-o.

Não quero dizer de maneira nenhuma que não haja actores bons e maus, não devem é ser tomados para além da sua normal relevância. Olhando para aquele que eu acho uma referência na interpretação de personagens, o grande Peter Sellers, ele era conhecido por ser um homem sem personalidade, ele era apenas as personagens que interpretava. Os actores são isso, o último grau da arte, o último instrumento necessário, nada mais. Não são os homens das ideias, não são os homens que compõem, não são essencialmente sequer os homens que decidem o que eles próprios devem fazer, nem sequer isso lhes compete. Não digo para não falarem dos homens e mulheres que vêm nos filmes, mas se quiserem ter o mínimo de coerência e forem verdadeiros apreciadores da arte, existe uma lista extensa de ilustres desconhecidos que têm muito mais lugar na história. E agora vou ver de novo “Yi Yi” ou “um um”, pena já ninguém ligar ao bom cinema japonês…


Axel Ferreira

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